Com apenas cinco anos de existência, em 1974 a Embraer já era considerada uma empresa consolidada. Com cerca de 3.000 funcionários, apresentava em suas linhas de produção três aviões de sucesso no mercado: o Bandeirante, o Xavante, e o Ipanema. As três aeronaves cobriam com consistência os mercados comercial, militar e agrícola.
Mas havia outros segmentos a serem conquistados: em 1973, o Brasil ocupava o primeiro lugar no hemisfério sul entre os importadores de aviões leves, pequenos monomotores ou bimotores de até dez lugares. Quase sempre, eram aviões produzidos pela norte-americana Piper Aircraft Corporation, muito requisitados por empresas para viagens rápidas e transporte de executivos.
A previsão era de que, até 1978, o mercado brasileiro absorvesse cerca de 3 mil aviões leves. Para contemplar este potencial mercado, a Embraer entrou em negociação com a Piper para produzir algumas de suas aeronaves sob licença no Brasil. A ideia era, também, que a Embraer adquirisse conhecimento em produção de larga escala – que surgiria a partir deste nicho.
Durante as comemorações do quinto aniversário da Embraer, a Empresa assinou um contrato de cooperação com a Piper nas áreas de desenvolvimento, produção e comercialização de seus aviões leves. Inicialmente, a Embraer fabricaria apenas dois modelos: os bimotores EMB 820 Navajo (Piper Navajo Chifetais) e EMB 810 Sêneca (Piper Sêneca III). No entanto, já em 1974, a fabricação do monomotor EMB 720 Minuano (Cherokee Six) também foi incorporada à linha de produção da Companhia No mesmo ano, a Empresa contratou a Indústria Aeronáutica Neiva para apoiar na produção das aeronaves EMB 710 Carioca (Cherokee 235 Pathfinder) e EMB 711 Corisco (Cherokee Arrow II), todos da Piper.
A apresentação oficial das cinco aeronaves ocorreu em 17 de junho de 1975. Além delas, no período de 1976 a 1984, foram lançados mais três modelos leves oriundos da parceria com a Piper: o EMB 712 Tupi (Piper Archer II), o EMB 721 Sertanejo (Cherokee Lance) e o EMB 821 Carajá, sendo esta última uma versão atualizada do Navajo. Ao total, a Embraer garantiu junto à Piper a licença para comercializar oito aeronaves leves.
Em 1978, a Embraer passou a produzir localmente os aviões, com peças e componentes também fabricados no Brasil, com exceção de alguns poucos itens. Já em 1984, toda produção da linha de aviões leves da Embraer foi transferida para a Neiva – cuja aquisição já havia sido consolidada pela Embraer em 1980 - em Botucatu, no estado de São Paulo.
A produção de aeronaves leves superou as expectativas. No total, 2.326 aviões derivados da parceria com a Piper foram entregues pela Embraer entre 1975 e 2000.
Monomotor de asa baixa, o EMB 710 Carioca podia decolar e pousar em pistas curtas e até mesmo não pavimentadas. Era equipado com motor Lycoming com potência de 235 HP, trem de pouso fixo e triciclo, além de possuir um sistema especial de ventilação e baixo nível de ruído na cabine, garantindo conforto para os passageiros. Fácil de ser pilotado, o Carioca foi amplamente adotado para transporte de táxi-aéreo. Outro diferencial da aeronave era o baixo consumo de combustível - percorria cerca de seis quilômetros por litro. Ao todo, 288 unidades foram fabricadas, sendo as quatro últimas entregues em 1983.
O avião ficou marcado por ter sido sorteado durante a solenidade que marcou a apresentação oficial da família de aviões resultante da parceria entre a Piper e a Embraer no Brasil. Realizado em 1975, o sorteio teve como vencedor o Aeroclube de Bragança Paulista, que concorreu com outros 36 clubes.
Considerado veloz para os padrões de aeronaves de pequeno porte da época, o EMB 711 Corisco era equipado com motor Lycoming de 200 HP e alcançava até 265 km/h. Podia transportar até quatro pessoas em ambiente com ventilação controlada, além de contar com isolamento acústico - o que lhe garantia baixos níveis de ruído. Outra característica marcante era a empenagem em “T”, na qual o conjunto estabilizador horizontal é montado no topo do estabilizador vertical. Dessa maneira, o sopro das hélices não atingia o estabilizador horizontal, garantindo menor nível de vibração e ruído e proporcionando um voo mais estável e agradável.
Em 1980, foi lançado o EMB 711 ST - Corisco II ou Corisco Turbo, com turbo-compressor e acabamento luxuoso. O Corisco Turbo atingia até 330 km/h.
O bom desempenho, segurança e robustez lhe garantiram ampla aceitação entre os aeroclubes brasileiros, além de uso para turismo.
As últimas quatro unidades, de um total de 477 produzidas, foram fabricadas em 1990.
O EMB 712 Tupi foi apresentado no Brasil em 1979 e, já no ano seguinte, era considerado o avião com melhor custo-benefício na categoria.
A aeronave apresentava confortável cabine de comando duplo com quatro lugares. Sua fuselagem era do tipo monocoque, com estrutura primária de liga de alumínio. Equipado com asa semi-afilada, o monomotor podia atingir a velocidade de 207 km/h com um Lycoming de 180 HP. Econômico, consumia apenas 1 litro de gasolina para cada oito quilômetros voados. Além disso, era capaz de realizar manobras semiacrobáticas, dada a estrutura de sua fuselagem.
Todas essas características fizeram do Tupi um dos aviões mais bem aceitos entre os aeroclubes brasileiros, resultando em 145 unidades fabricadas.
Lançado em 1975, o EMB 720 Minuano foi idealizado para operar em regiões cujos campos de pouso fossem curtos ou não pavimentados.
A aeronave, equipada com motor Lycoming de 300 HP, alcançava até 270 km/h e contava com um moderno sistema eletrônico de comunicação e radio navegação. Com capacidade para acomodar até seis passageiros, possuía amplo espaço para bagagens na porta traseira e nariz.
Uma pesquisa divulgada em 1984 mostrou que o Minuano cumpria seu propósito, uma vez que a aeronave era amplamente utilizada por fazendeiros para conectar as zonas urbanas e rurais. Dois anos depois, a aeronave com prefixo PT-RNR foi selecionada por seis pilotos franceses da École Nationale Supérieure de L’Aeronautique et de I'Espace para cruzar os céus brasileiros de norte a sul. O Minuano percorreu 1000km, em 51 horas de voo, durante 13 dias consecutivos. A jornada da tripulação foi transformada em tese e legitimou a importância da aviação de pequeno porte como elemento de integração em países de dimensões continentais como o Brasil.
O EMB 721 Sertanejo foi apresentado no Brasil em 1976 - um ano após a Embraer ter introduzido os cinco primeiros modelos da parceria com a Piper.
Avião de asa baixa com estrutura de alumínio, o monomotor alcançava 290 km/h com seu Lycoming de 300 HP, contando ainda com piloto automático de três eixos.
Versátil, apresentava cabine larga na qual acomodava até sete pessoas, podendo ser adaptado para transporte executivo. Seus assentos eram retiráveis, viabilizando o uso do espaço interno para transportar até 700 kg de carga. Havia outro item de conforto: o bagageiro dianteiro funcionava como isolante aos ruídos do motor. No total, foram vendidas 208 unidades do modelo.
Idealizado para conectar centros urbanos, o bimotor EMB 810 Seneca era um dos mais leves do mercado e podia transportar até sete passageiros. Equipado com motores Continental de 200 HP e hélices bi-pás, apresentava baixo consumo de combustível.
Buscando aperfeiçoar o produto, em 1982 a Embraer introduziu modificações no avião, incluindo motores mais potentes – de 220 HP – e hélices tri-pás que garantiam maior velocidade de cruzeiro. Essas melhorias, acompanhadas de novas tecnologias, possibilitaram voos em atitudes mais elevadas, com teto aprovado de 25 mil pés.
A nova versão também apresentava decoração sofisticada e possibilidade de adaptação dos assentos para configurar o modelo como avião executivo. Neste formato, as poltronas se posicionavam frente a frente, com uma mesa retrátil ao centro.
O avião, que em meados de 1970 já era o bimotor mais vendido no mundo entre as aeronaves de sua classe, foi também um sucesso de vendas no Brasil. Foram 876 unidades produzidas pela Embraer, tendo o sido o último exemplar fabricado no ano 2000.
O EMB 820 Navajo foi lançado em junho de 1975 e voou pela primeira vez em dezembro do mesmo ano. No entanto, o seu sucesso teve início antes mesmo do lançamento, quando em setembro de 1974 a Embraer recebeu uma carta de intenção de compra de 4 aeronaves pela empresa Alpha Táxi Aéreo LTDA.
O centésimo EMB 820 a deixar a linha de produção da Embraer foi entregue em novembro de 1979 ao piloto brasileiro Emerson Fittipaldi. Essa aeronave foi usada por Fittipaldi em suas viagens durante o Campeonato Mundial de Fórmula I e nos negócios que sua companhia mantinha no Brasil.
Robusto, rápido, confortável e já conhecido no mercado brasileiro, o bimotor transportava até 10 passageiros. Além disso, era possível configurá-lo como avião executivo ou para transporte de cargas de até uma tonelada.
Era equipado com dois motores Lycoming, de 350 HP cada, com turbo alimentação e injeção direta de combustível, garantindo baixo custo operacional e bom desempenho em altitudes intermediárias. As hélices eram Hartzell, de velocidade constante e contra rotativas.
Em 1984, a Embraer lançou seu projeto para uma nova versão do Navajo, o turboélice EMB 821 Carajá. A principal melhoria foi a substituição dos dois motores a pistão Lycoming de 350 HP cada, que eram abastecidos com gasolina azul, por duas turbinas Pratt & Whitney de 550 HP movidas a querosene de aviação. Essa mudança tinha como objetivo conquistar os clientes de táxi aéreo.
Com capacidade para acomodar até oito passageiros, o Carajá foi apresentado publicamente em 27 de outubro de 1984, durante a I Revoada Nacional de Velhas Águias, no Aeroporto de Bacacheri em Curitiba
Em 1986, a Embraer lançou um consórcio para vendas do Carajá, e foi um sucesso: em apenas 52 dias, foram vendidas 28 unidades.